Brachycephalus margaritatus, Pombal & Izecksohn, 2011

Pombal Jr., José P. & Izecksohn, Eugenio, 2011, Uma Nova Espécie De Brachycephalus (Anura, Brachycephalidae) Do Estado Do Rio De Janeiro, Papéis Avulsos de Zoologia 51 (28), pp. 443-451: 444-448

publication ID

http://doi.org/ 10.1590/S0031-10492011002800001

persistent identifier

http://treatment.plazi.org/id/B8518798-FF96-8063-FD51-E41B0CDCFA05

treatment provided by

Carolina

scientific name

Brachycephalus margaritatus
status

sp. nov.

Brachycephalus margaritatus   sp. nov.

( Figs. 1 e View FIGURA 1 2 View FIGURA 2 )

Brachycephalus ephippium: Izecksohn, 1971   (parte). Holótipo: MNRJ 39312 View Materials , fêmea, Sacra Família do Tinguá (22°30’08”S; 43°35’13”W), município Engenheiro Paulo de Frontin   GoogleMaps , Estado do Rio de Janeiro coletado em junho de 1970, por Fernando C. Rezende.

Parátipos: MNRJ 25373-74, sexo indeterminado, coletados em 06 de outubro de 1977 por E. Izecksohn; MNRJ 25375-76, sexo indeterminado, coletados em 10 de outubro de 1981 por E. Izecksohn, C.A.G. Cruz e O.L. Peixoto; MNRJ 25387-89, duas fêmeas e um macho, respectivamente, coletados em 25 de janeiro de 1975 por E. Izecksohn, C.A.G. Cruz, M. Soma e U. Caramaschi; MNRJ 25401, macho, sem data, coletado por F.C. Cerqueira; MNRJ 39311, 39313-316, uma fêmea, dois não sexados e um macho, respectivamente, coletados juntamente com o holótipo. ZUEC 10822-23, sexo indeterminado, coletados em 25 de janeiro de 1978 por E. Izecksohn, A.J. Cardoso e U. Caramaschi. MNRJ 21675, fêmea, Morro Azul, município de Paulo de Frontin, Estado do Rio de Janeiro, coletado em 30 de janeiro a 1 de fevereiro de 1998 por M.F. Napoli, G.V. Souza, M. Martins e H. Santos; MNRJ 25385, sexo indeterminado, Sítio do Pau Ferro, Morro Azul, município de Engenheiro Paulo de Frontin, Estado do Rio de Janeiro, coletado em 21 de agosto de 1987 por M. Martins.

Diagnose: Espécie de Brachycephalus   caracterizada por (1) grande porte (15,0 a 18.9 mm CRC); (2) coloração alaranjada em vida e creme a creme acinzentado em líquido preservativo; (3) presença de placas dorsais bem desenvolvidas com suas bordas laterais curvadas para baixo; (4) protuberâncias esparsas desenvolvidas no dorso e membros.

Comparação com outras espécies: Pela presença de placas ósseas dorsais Brachycephalus margaritatus   é facilmente distinguido de B. alipioi   , B. atelopoide   , B. brunneus   , B. bufonoides   , B. didactylus   , B. ferruginus   , B. hermogenesi   , B. izecksohni   , B. nodoterga   , B. pernix   , B. pombali   , B. pulex   , B. toby   e B. vertebralis   (ausente nestas espécies). Pela presença de placas ósseas dorsais bem desenvolvidas e pela coloração geral alaranjada em vida, a nova espécie é semelhante a B. ephippium   e B. garbeanus   (veja Pombal, 2010). A nova espécie difere de B. ephippium   pelo corpo coberto por protuberâncias bem desenvolvidas, porosas e esparsas (ausentes em B. ephippium   ); placa cefálica e placas dorsais mais ossificadas; as placas dorsais cobrem uma maior extensão do dorso e suas bordas laterais são curvadas para baixo, acompanhando os flancos (não curvadas em B. ephippium   ); coloração geral creme a creme acinzentado em exemplares fixados (creme em B. ephippium   ). De B. garbeanus   , a nova espécie pode ser distinguida pelo seu corpo coberto com protuberâncias esparsas e desenvolvidas com aspecto poroso (ausentes, quando presentes não esparsas e sem aspecto poroso em B. garbeanus   ); placa dorsal não projetada para cima sobre a coluna vertebral (em B. garbeanus   projetada nas bordas e sobre a coluna vertebral); cabeça, de maneira geral, pouco mais larga e mais ossificada; projeções cefálicas dorsais equidistantes menos desenvolvidas que em B. garbeanus   .

Descrição do holótipo: Corpo robusto, bufoniforme ( Fig. 1 View FIGURA 1 ); cabeça grande; levemente mais larga que longa; ossificada exceto sobre os olhos; focinho pouco ossificado, muito curto, semicircular em vista dorsal e redondo em vista lateral ( Fig. 2 View FIGURA 2 ); narinas não protuberantes, dirigidas anterolateralmente; canto rostral distinto, quase reto; olhos de tamanho médio, pouco salientes dorsalmente; tímpano não visível; dobra supra-timpânica ausente; boca aproximadamente com forma sigmóide; extremidade anterior da mandíbula com pequena projeção que se encaixa nas maxilas; língua longa e estreita; dentes vomerianos ausentes; dentes maxilares ausentes; coanas pequenas, redondas, anteriores aos olhos. Ossificação dermal dorsal às vértebras composta por duas placas fundidas; extremidades das placas dorsais mais altas formando conjunto convexo; superfícies das placas finamente vermiculadas; placa triangular óssea anterior ao conjunto principal; placa óssea em forma de triangulo invertido entre a placa anterior e o conjunto principal, encaixando no conjunto principal; um par de cristas ósseas pós-orbitais; um par de saliências ósseas eqüidistantes entre as cristas pós- -orbitais. Braços esbeltos, antebraços moderadamente esbeltos; dedos robustos; quarto dedo muito reduzido, quase ausente; terceiro dedo o mais longo, primeiro o mais curto; extremidades dos segundo e terceiro dedos pontudas; tubérculo subarticular ausente; tubérculos metacarpais interno e externo ausentes. Pernas curtas, moderadamente robustas; artelhos robustos; primeiro artelho quase não visível externamente; quinto artelho reduzido a uma pequena protuberância; tubérculos subarticulares ausentes; tubérculos metatarsais interno e externo ausentes; comprimento relativo dos artelhos I<V<II<III<IV; extremidades dos artelhos pontudas. Pele do dorso e membros com grandes verrugas; proximidades da região cloacal granulosa; superfícies inferiores dos membros, barriga e garganta lisas, exceto próximo a região cloacal, granulosa.

Medidas do holótipo: CRC 17,9; CC 6,9; LC 7,4; DO 1,7; DIO 3,0; DON 1,1; DIN 2,1; CF 8,4; CT 7,5; CP 6,3.

Coloração: Os indivíduos em vida são completamente laranja ( Fig. 3 View FIGURA 3 ) a laranja-arroxeados, com olhos pretos. Em preservativo, a coloração geral é creme a creme acinzentado; as placas ósseas dorsais e ossificação da cabeça são creme mais escuro que o resto do corpo; as protuberâncias sobre o corpo são esbranquiçadas; olhos e estreita linha em seu entorno pretos.

Variação: Como em outras espécies de Brachycephalus   com placas ósseas dorsais, o formato e o desenvolvimento ósseo cefálico são muito variáveis e espécimes maiores apresentam estas estruturas mais ossificadas. Embora sempre presente, a quantidade e desenvolvimento das protuberâncias rugosas pelo corpo é variável. Na maioria dos espécimes há uma protuberância próxima a cada comissura labial (ausente em cinco exemplares), a estreita linha preta no entorno dos olhos pode ser sutil em alguns exemplares (quatro indivíduos). Em poucos indivíduos a pele da região ao redor da abertura cloacal é muito verrucosa. As medidas da série tipo, média, desvio-padrão e amplitude (entre parênteses) são CRC 16.9, 1.26 (15.0-18.9); CC 6.9, 0.49 (6.0-7.6); LC 6.8, 0.34 (6.2-7.3); DO 1.6, 0.15 (1.4-1.9); DIO 2.8, 0.34 (2.4-3.8); DON 0.84, 0.13 (0.7-1.1); DIN 2.0, 0.14 (1.8-2.3); CF 7.3, 0.44 (6.5-8.1); CT 7.2, 0.44 (6.5-7.9); CP 6.0, 0.36 (5.6-6.6).

Distribuição geográfica de Brachycephalus margaritatus   , B. garbeanus   e B. ephippium   : B. margaritatus   é conhecido no município de Eng. Paulo de Frontin, Paty do Alferes e localidades no município de Petrópolis, todas no Estado do Rio de Janeiro ( Fig. 4 View FIGURA 4 ). Brachycephalus garbeanus   é conhecido da região de Nova Friburgo e imediações, região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Brachycephalus ephippium   é conhecido dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais ao estado de São Paulo sempre sobre região montanhosa ( Fig. 4 View FIGURA 4 ). Para comentários sobre registro em Ilhéus, Estado da Bahia (localidade tipo de B. ephippium   ; Spix, 1824) ver Pombal et al. (1998).

Etimologia: O nome específico margaritatus   , em latim, significa adornado com pérolas, em alusão ao corpo e aos membros recobertos por protuberâncias esbranquiçadas nos exemplares fixados.

História Natural: Na localidade tipo, indivíduos de Brachycephalus margaritatus   foram encontrados caminhando sobre a serapilheira durante a noite (EI obs. pess.). Em Paty de Alferes e Petrópolis, exemplares foram observados sobre a serapilheira durante o período diurno (S.P. Carvalho e Silva e M. Gomes comunicações pessoais). Como outras espécies do gênero, a nova espécie é encontrada no interior de florestas. No mesmo ambiente que B. margaritatus   foram encontrados as seguintes espécies de anuros: Brachycephalus didactylus (Izecksohn, 1971)   , Allobates olfersioides (Lutz, 1925)   , Iscnocnema parva (Girad, 1853), Leptodactylus marmoratus (Steindachner, 1867)   , Zachaenus parvulus (Girard, 1853)   e Myersiella microps (Duméril & Bibron, 1841) (Izecksohn, 1971)   .

Comentários: As ilustrações de Brachycephalus ephippium   apresentadas em Izecksohn (1971) correspondem a B. margaritatus   .

Como atualmente definido, o gênero Brachycephalus   passa a contar com dezoito espécies; destas, dez foram descritas apenas na última década ( Frost, 2011, este estudo). Apenas recentemente as variedades descritas por Miranda-Ribeiro (1920) para B. ephippium   foram revalidadas (Pombal, 2010). Assim, o número de espécies reconhecidas aumentou em cerca de oitenta por cento apenas no último decênio. Desta forma é esperado que novas espécies deste gênero sejam descobertas. Os estudos taxonômicos e morfológicos têm aumentado muito recentemente (e.g., este estudo; Clemente-Carvalho et al., 2009; Campos et al., 2010), ao passo que estudos sobre história natural continuam restritos (Pombal et al., 1994; Pombal, 1999; Verdade et al., 2008).

O desenvolvimento das placas ósseas dorsais e cefálicas aumenta com o crescimento dos indivíduos em B. ephippium   e B. garbeanus   . Também o formato das placas pode ser muito variável na mesma população. Assim a utilização dos caracteres ligados a estas ossificações devem ser usados com especial atenção. Os caracteres utilizados neste estudo para discriminar as espécies com placas ósseas dorsais são observáveis nos maiores indivíduos enquanto indivíduos pequenos podem ser facilmente confundidos com outras espécies.

Em uma análise filogenética molecular Clemente-Carvalho et al. (2011), usando análise Bayesiana particionada de sequências concatenadas e o método hierárquico Bayesiano, encontraram em todas as árvores apresentadas B. ephippium   e B. garbeanus   formando um clado. Aqui, indicamos a presença de placas ósseas dorsais desenvolvidas como uma provável sinapomorfia morfológica deste clado. Brachycephalus margaritatus   compartilha este caráter e, portanto, deve pertencer a este clado.